Sábado, 26 de Setembro de 2020
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Ode Marítima
Companhia João Garcia Miguel e Danças Ocultas 

   
“(…) Ó clamoroso chamamento  
A cujo calor, cuja fúria fervem em mim  
Numa unidade explosiva todas as minhas ânsias  
Meus próprios tédios tornados dinâmicos, todos!…  
Apelo lançado ao meu sangue  
De um amor passado, não sei onde, que volve  
E ainda tem força para me atrair e puxar,  
Que ainda tem força para me fazer odiar esta vida  
Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica  
da gente real com quem vivo (…)”  
 
Álvaro de Campos  
 
 
A interminável tarefa que será o comentário à obra de Fernando Pessoa remete-nos, desde logo, para duas questões capitais que são uma constante e um traço verdadeiramente distintivo do corpus literário do autor. Por um lado, a compulsiva multiplicação de um regime de heteronímia, por outro, a verdadeira mise en abyme provocada pelo reenvio constante para uma intricada tessitura intertextual auto-referencial, onde muitas vezes distintas constelações de heterónimos se cruzam e tocam. Este desdobramento e cisão numa espécie de fragmentação identitária do “eu” em diversos “outros”, que além dos heterónimos se revela, ainda, num grande número daquilo que o próprio definiu como as suas “personagens literárias”, atesta aquilo que Fernando Cabral Martins e Richard Zenith definem como um dispositivo que é “uma espécie de anel de Moebius pronominal”.  
 
No poema “Contudo, contudo”, de Álvaro de Campos, podemos ler: “(…) Eu que me aguente comigo e com os comigo de mim”. Esse desdobramento pessoano em “comigos de mim”, tal como a sua definição de “personagens literárias” remete-nos também para um efeito dramático que sobressai da sua textualidade e processo de heteronímia. Será o próprio Pessoa, em carta a João Gaspar Simões, que refere: “(…) sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro — eis tudo (…)”. Discípulo assumido de Caeiro, Campos é o heterónimo mais sensacionista de todos os “outros” de Pessoa. O seu “sentir tudo de todas as maneiras” remete-nos para uma poesia em constante diálogo com o universo, procedendo também à sua multiplicação em pontos de vista diversos. Como um espelho estilhaçado por uma bola, chutada por uma criança dentro do quarto, também o real de Álvaro de Campos, como bom futurista, explode em fragmentos dispersos de perspectivas vítreas, reluzentes e aleatórias.  
 
“Ode Marítima”, com o seu ritmo, a profusão e multiplicação de imagens poéticas, a obsessiva exploração de inúmeras tomadas de vista e perspectivas, ou o seu recorrente apelo e exploração de mecanismos sinestésicos, demonstram bem os efeitos de uma poesia fundada na leitura fragmentária do todo. Este todo invade o corpo e os sentidos. No entanto, é como se esse todo apenas existisse como a sensação de cada parte que o constitui, o que nos remete para o tédio e a inerente frustração conotados com aquilo que nos é inatingível. Por mais que tudo de todas as maneiras se sinta, o todo que é o universo está longe de uma total apreensão. Não é só a falar com o seu mestre Caeiro que Campos considera não estar a falar com outro homem, mas “com outro universo”. Também a sua forma de apreender as coisas do mundo tende para essa profusão de microcosmos, relacionando-se com cada sensação como se de um outro universo inteiro se tratasse. Entre o Maldoror de Lautréamont e esse Uivo que Allen Ginsberg havia de dar, situa-se esta Ode Marítima. Poema selvagem e compulsivo da partida e do regresso, viagem inefável pelos sentidos numa arritmia sensual e explosiva, rica nas suas metáforas, enebriante nas suas enumerações nervosas e sincopadas. Um golpe que o mergulhar do corpo dá mar adentro, por todo esse mar. Uma consciência que antecipa a nossa própria consciência e condição, um hino sensacionista à redenção e sobre essa contemporaneidade que foi a de Pessoa e que agora, por mais estranho que possa parecer, é aquela em que nos detemos por nos estar ainda tão próxima e presente. Um monólogo que é muitos diálogos com o mundo inteiro, dividido nas suas múltiplas aparições como uma noite estrelada ou os aromas texturais de uma brisa marítima.  
 
 
Notas de Encenação  
 
Esta aproximação à obra de Álvaro de Campos é uma ventura sobre a linguagem e as suas constelações sonoras. Por isso convidei os Danças Ocultas a estarem envolvidos na criação. O convite estendeu-se ao Alexandre Crespo e ao Alberto Lopes anteriores cúmplices. Afastando-nos de uma leitura directa e naturalista abrem-se um vasto leque de opções onde a abstração e a geometria latente e suspensa nas entrelinhas do texto e suas desmultiplicadas narrativas nos podem guiar. Os desdobramentos de diálogos entre a infância e o mestre (entre Álvaro e Caeiro), entre o jogo de locais conhecidos e desconhecidos (o cais e os horizontes longínquos — os mares e costas por explorar e descobrir), de geografias que são tanto interiores como exteriores: territoriais e ou humanas (das tias aos piratas, ao amigo inglês), das máquinas e progresso e dos seus símbolos aliados do movimento (o volante, os barcos, as facturas, velas, escotilhas, ventoinhas) — tudo são linhas abertas à descoberta de linguagens cénicas e desafios que nos colocamos. Um só actor acompanhado de quatro músicos será o material humano a partir do qual se construirá o ´debito cénico. O som, a luz e a espacialização cénica — e a eterna ironia — serão os elementos desta encenação sobre os quais incidirão os cuidados e as atenções sempre intensificados dentro das linhas de pesquisa e experimentação que o percurso da companhia vem percorrendo.
 
 
Preço  
5€  
 
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