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ENDGAME revisitado
A companhia

O Teatro Meridional é uma Companhia que nos seus espectáculos procura um estilo marcado pelo despojamento cénico, onde o trabalho de interpretação do actor é protagonista.
As principais linhas de actuação artística do Teatro Meridional prendem-se com a criação de novas dramaturgias baseadas em adaptações de textos não teatrais (com relevo para a ligação ao universo da lusofonia , p rocurando fazer da língua portuguesa um encontro com a sua própria história), com a encenação de textos originais ( lançando o desafio a autores para arriscarem a escrita dramatúrgica), com a adaptação e encenação de textos maiores da dramaturgia mundial, e com a criação de espectáculos onde a palavra não é a principal forma de comunicação cénica.
Desde 1992, ano da sua fundação, já apresentou os seus trabalhos em 17 países (dos 5 continentes) para além de realizar uma itinerância anual por Portugal Continental e ilhas.
Este projecto já foi distinguido 11 vezes a nível nacional e 5 a nível internacional.

A companhia Primeiros Sintomas estreou-se em 2001 com a peça A'Rosas Suicidam-se de Ramón Gómez de la Serna em co-produção com o Teatro Experimental do Funchal. A seguir produziu Transfer ( 2002) enc. Carla Bolito; O Vidro (2002) de Bruno Bravo e Francisco Luís Parreira, enc. Bruno Bravo; Frankenstein (2002) a partir de Mary Shelley, enc. Bruno Bravo; A Montanha Também Quem (2003) de Miguel Castro Caldas, enc. Bruno Bravo; O Homem do Pé Direito (2003) de Miguel Castro Caldas, enc. Bruno Bravo; Nevoeiro (2003 ) concepção de Paula Castro e Sandra Faleiro. Endgame (2004) de Samuel Beckett em co-produção com o Teatro Meridional, enc. Bruno Bravo. O Homem da Picareta (2003) de Miguel Castro Caldas, enc. Bruno Bravo. Conto de Natal variações de Dickens , de Miguel Castro Caldas, enc. Bruno Bravo.
Os Primeiros Sintomas são: Bruno Bravo (Director Artístico), Mafalda Gouveia (Directora de Produção), Élvio Camacho, Gonçalo Amorim, Gonçalo Waddington, Miguel Castro Caldas, Peter Michael, Raquel Dias, Sandra Faleiro e Stéphane Alberto.
SOBRE O ESPECTÁCULO
Endgame é talvez a peça mais emblemática de Samuel Beckett. Pelo seu sentido trágico e cómico, pela maturidade da escrita e da construção dramática. Escrita originalmente em francês ( Fin de Partie - 1957) foi traduzida pelo autor para inglês em 1958 com o título Endgame .
Confinados a um espaço fechado apenas com duas pequenas janelas que dão para um mundo de desolação onde o mar e a terra são uma única cor cinzenta, quatro personagens procuram o fim.
Hamm, o patriarca, meio Hamlet, impossibilitado de ver e de se levantar, comanda o patético e trágico universo da peça e simboliza, segundo Beckett, um mau jogador neste sórdido jogo existêncial. Clov, meio escravo meio filho de Hamm, ameaça com recorrência que se vai embora, tal como Hamm do mesmo modo lhe pede que desampare. Mas a peça é ambígua entre o poder e a vontade e liga os dois personagens a uma relação de interdependência, de sadismo e de banalidade. Nagg e Nell, os pais de Hamm, estão dentro de dois caixotes e presos à memória de um tempo que se supõe ter existido outrora, em relação a um outro que se mantém imutável e que parece estar sempre aquém do fim.
Endgame é uma peça circular onde, segundo Beckett, pelas palavras de Hamm:
"O fim está no princípio e no entanto prosseguimos."
SOBRE A ENCENAÇÃO
Endgame não é uma peça que se possa encenar, no sentido "aparentemente" clássico da palavra. Como encenar um texto que ao invés de tomarmos opções sobre ele é sempre ele que vai optando por nós. Como encenar um texto que fala sempre melhor pelos actores quando entramos nos campos da dúvida.
Endgame não se encena, provavelmente nenhuma outra peça do Beckett se encena, experimenta-se. E foi isso que eu fiz, foi isso que fizemos.
Quem é o Hamm? Primeiro pela voz de João Lagarto e agora pela voz de Diogo Infante. Dois Hamms que sendo tão diferentes são, ao mesmo tempo, absolutamente o mesmo. Quem é Clov e que relação tem com Hamm? Que espécie de mundo desolado persiste para além dos tijolos ocos? É tudo cenário. As dúvidas persistem para além dos ensaios, persistem em cena e persistirão sempre. As dúvidas que não importam. As dúvidas que são eles mesmas afirmativas. É tudo cenário. O Hamm, o Clov, a Nagg e o Nell também eles são peças neste jogo e contudo brutalmente iguais a todos nós.
Bruno Bravo
PARCERIA REVISITADA ( teatro meridional e Primeiros Sintmoas )
Quando duas companhias de Teatro, com distintos projectos artísticos, encontram um espaço comum de cumplicidade humana e criativa, acredito estarem criadas as condições essenciais para se desenvolver um trabalho de parceria que resulte na produção de um espectáculo em que ambos se revejam.
Foi o que aconteceu com os Primeiros Sintomas e o Teatro Meridional . Assim, em Abril de 2004, estreámos Endgame , de S. Beckett, no espaço Karnart, em Lisboa.
Perante os diversos desafios estimulantes que o espectáculo nos colocou, cedo sentimos vontade de olharmos de novo para este texto.
Endgame Revisitado é um espectáculo que segue a mesma estrutura narrativa proposta na primeira apresentação, mas que foi influenciado quer pela mudança espacial quer, sobretudo, pelas alterações ao nível do elenco.
Diogo Infante como Hamm , no lugar de João Lagarto, e Gonçalo Amorim que substitui Gonçalo Waddington como Nagg , são dois actores que, inevitavelmente, provocam significativas alterações nas várias dinâmicas pelas quais o espectáculo é atravessado.
Procurando ser fiel à proposta de encenação, diria que o Bruno Bravo se deixou invadir poeticamente pelas novas nuances que lhe foram propostas, e fez como que um novo arranjo musical nesta magnífica partitura deste texto maior da literatura mundial.
E a parceria Primeiros Sintomas e Meridional , também ela revisitada, mantém a sua cumplicidade.
"Continuemos, continuemos".
Miguel Seabra
Jantar Teatro Aveirense - Salão Nobre
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